Grande parte das pessoas não sabe mas algumas das práticas adotadas por psicólogos em sua clínica são produto de exaustiva pesquisa científica. O interesse pelo estudo dos efeitos da psicoterapia vem de longa data.

 

È possível que a origem da preocupação com resultados mensuráveis tenha ganhado vulto com o trabalho de Rosenzweig em 1936. O autor publicou uma tese na qual afirmava que a eficácia de um tratamento não atestava sua superioridade sobre o outro, mas que fatores comuns as diversas modalidades de psicoterapia seriam os fatores relevantes responsáveis pela melhora dos pacientes. Não haveria portanto qualquer fator específico a determinada psicoterapia que atestasse um desempenho superior. Dentro desse entendimento, diferentes abordagens seriam comparavelmente eficientes.

 

Quase 40 anos depois, ao examinarem uma centena de estudos comparativos, alguns pesquisadores encontraram diferenças não significativas entre as diversas modalidades de psicoterapia. A tese de fatores comuns versus fatores específicos foi revisitada e vem sendo pauta de controvérsias no debate da psicologia contemporânea. Felizmente muita coisa mudou no refinamento das metodologias de pesquisa de modo que essa dicotomia tenha sido, até certa medida, superada.

 

A investigação sobre a validade das psicoterapias tem sido dividida historicamente em três importantes períodos (ditos três gerações), cada qual com seus métodos e preocupações genuínas de pesquisa. A Geração I foi iniciada ao longo dos anos 50s e basicamente estava preocupada em responder ao questionamento de se a psicoterapia é efetiva em promover mudanças de personalidade. Nos anos 60s e 70s, com o início da terapia comportamental, os estudos da Geração II compararam diferentes métodos para problemas de comportamento específicos. Era comum nesses tipos de investigação a seleção de pacientes com problemas-alvo, a exemplo da falta de habilidades sociais ou problemas de comportamento de crianças com desenvolvimento atípico, como o autismo. Nesses tipos de desenhos de pesquisa, era comum o uso de procedimentos baseados em diretrizes sistematicamente descritas e a atribuição randômica (portanto, aleatória) dos participantes em diferentes intervenções psicoterápicas (ditos situações experimentais).

 

A Geração 3 teve início nos anos 80s e foi reflexo dos crescentes movimentos políticos vigentes. Naquela época o financiamento das pesquisas patrocinadas pelo National Institute of Mental Health (NIMH), instituição americana de pesquisa em saúde, começou a exigir um redirecionamento metodológico de encontro ao modelo médico. No Programa Colaborativo para o Estudo da Depressão, por exemplo, era necessário que inventários diagnósticos fossem adotados na seleção dos participantes de pesquisa. Os populares Inventário Beck e Inventário Hamiltom para depressão foram extensamente exigidos nas pesquisas com interesse na publicação em revistas científicas conceituadas. Na depressão, além desses inventários, outros inventários eram também aplicados para excluir da amostra os participantes que tivessem qualquer doença mental concorrente (como os transtornos de ansiedade ou de personalidade). O modelo médico vinha perseguindo o construto de doença, conforme a tradição histórica da medicina, pautada na descrição de critérios diagnósticos assumidos como sendo exclusivos a determinada realidade psicológica (chamados de agrupamentos sindrômicos).

 

As psicoterapias começaram a ser avaliadas segundo os mesmos critérios usados na pesquisa com medicamentos psiquiátricos. A repercussão desse movimento foi a adoção crescente dos manuais diagnósticos psiquiátricos, como o "Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais" (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria. Em declaração política oficial publicada por volta de 1970, o então diretor do NIMH afirmou que o futuro da pesquisa sobre doença mental dependeria da compreensão e tratamento biológico dessas desordens. Como pano de fundo desse esforço, observou-se a “medicalização” crescente dos resultados da psicoterapia. A ênfase dos resultados passou a ser redirecionada para a remissão dos supostos sintomas dos portadores de “doenças mentais”. A partir daí os estudos passaram a ser chamados de ensaios clínicos randomizados e não mais estudos de resultado.

 

A aproximação das pesquisas em psicoterapia com os moldes médicos foi influenciada pelo restritivo mercado dos seguros de saúde americano, chamados de Atenção Gerenciada (Managed Care). Grosso modo, esses seguros seriam planos de pacotes pré-pagos em que os clientes pagariam pela cobertura médica a que tivessem interesse. Gradativamente esse sistema foi se desinteressando por psicoterapias de longa duração. Os tratamentos com medicamentos cresceram de importância pelos seus baixos custos e relativa rapidez. A psicologia clínica deveria portanto se pautar nos princípios médicos de pesquisa se quisesse ganhar mercado. Dizer de outra forma, deveria estar interessada na remissão rápida e eficaz dos sintomas dos chamados transtornos mentais.

 

A despeito de nunca terem descoberto qualquer evidência de causalidade biológica para as doenças mentais (o que em tese desautorizaria alguém chamar os comportamentos de “sintomas”), o fato é que dado movimento histórico impulsionou a adoção de um rigor metodológico singular nas pesquisas em psicoterapia. Esse foi um ponto bastante positivo na história por estreitar o diálogo científico entre médicos e psicólogos (encontro esse tão desejado).

 

Preocupada em não perder a identidade teórica e empírica, hoje a pesquisa em psicoterapia tem variado suas metodologias de modo a dar conta de abarcar o rico fenômeno comportamental humano. Atualmente tem-se perseguido novos objetivos de pesquisa, a exemplo da pesquisa de processo terapêutico. Nela, se investiga ponto a ponto quais interações entre terapeuta e cliente são responsáveis por mudanças de comportamento do cliente. Esse tipo de modalidade é interessante por demonstrar algumas vezes por que alguns clientes depressivos ou ansiosos, embora não apresentem remissão dos sintomas, melhoram em outras áreas da vida como os relacionamentos interpessoais, a habilidade de resolver problemas matrimoniais, a comunicação no trabalho, o descobrimento de valores pessoais, etc.

 

Se é verdade que as psicoterapias baseadas em evidências se preocupam em melhorar a qualidade de vida de seus clientes de forma mais ampla, então é igualmente verdade que as metodologias de pesquisa têm de ser planejadas para mensurar sistematicamente mudanças de comportamento mais amplas na vida das pessoas com sofrimento psicológico.    

 

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