Alta Ansiedade [Folha de Londrina]
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| Seg, 14 de Novembro de 2011 10:54 |
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Veículo: Folha de Londrina Seção: Curitiba Data: 19/12/2007 Estado: PR Psicólogo Citado: Paulo Abreu É preciso estar atento para enfrentar o estresse e as sensações de angústia e solidão que surgem com mais força nesta época do ano Multidões correndo de um lado para o outro. Mães tentando acalmar crianças chorosas, agarradas a caixas de brinquedos. Homens usando roupa vermelha e barba branca postiça se arrastando pelos corredores abarrotados dos centros de compras com um enorme saco nas costas. Pedintes que se multiplicam pelas ruas. Listas intermináveis de presentes, contas e tarefas inacabadas que se acumulam sobre a mesa, festinhas do colégio, da empresa, do condomínio. Anúncios que “gritam” as ofertas imperdíveis que podem ser adquiridas a perder de vista. Parece o fim do mundo, mas é apenas o fim de mais um ano. A sensação, muitas vezes, é de que o dia-a-dia, conforme o conhecemos, está suspenso ou fora de ordem, no mês de dezembro. Surge a idéia de que tudo tem que ser feito mais rapidamente, o que leva muita gente e experimentar sensações desagradáveis, como angústia, ansiedade extrema, melancolia e solidão. “Eu gosto do Natal para poder ficar com a família, mas nessa época tudo fica mais complicado”, afirmava o motorista Décio Cuba, de 29 anos, que na sexta-feira passada saiu de São José dos Pinhais, se revezando entre duas filiais da loja em que trabalha. Mas, empregado há poucos meses, garantia não estar aborrecido. “As lojas ficam mais cheias, mas se eu vender mais, a comissão aumenta”, comenta. Uma pesquisa realizada em 2006 pela International Stress Management Association do Brasil (Isma-BR), associação sem fins lucrativos que estuda o estresse e suas formas de prevenção, revelou que 75% de homens e mulheres com idades entre 25 e 55 anos são atingidos por esse desconforto durante as festas de fim de ano. A entidade, com sede em Porto Alegre, ouviu 678 pessoas e metade afirmou precisar de medicamentos para enfrentar essa fase. Afinal, é mesmo difícil não se deixar contagiar pelas mensagens publicitárias típicas desse período que propagam a felicidade a todo custo, incentivam o consumo e reforçam determinados padrões sociais. “As pessoas estão muito individualistas. Muita gente, ainda que tenha família, não tem com quem conversar, não consegue ser ouvido nem desabafar”, afirma Quintino Dagostin, coordenador do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Curitiba, que registra aumento no número de ligações durante essa época do ano. “Há quem ligue apenas para nos agradecer, mas já houve casos de pessoas que estavam em festas e ligaram pra cá porque se sentiam sozinhas mesmo estando com familiares e amigos”, acrescenta. O CVV, presente há 27 anos na capital, presta apoio emocional por telefone e também pessoalmente, na sede da Água Verde. “Aqui não aconselhamos, nem direcionamos. Apenas ouvimos e acolhemos quem nos procura.” Os voluntários trabalharão inclusive nos feridos de Natal e Ano-Novo. Superando desafios Embora não possa ser considerado uma síndrome, esse conjunto de fatores que provoca ansiedade e outras sensações desconfortáveis nessa fase do ano, deve ser observado com atenção. De acordo com o psicólogo Paulo Abreu, especialista em terapia comportamental, as pessoas que sentem-se à vontade no período do Natal e Ano-Novo devem aproveitar o momento. “Não é uma condenação à felicidade. A questão é que nem todos estão felizes, principalmente em um país com tantas desigualdades”, ressalta o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). As pressões sofridas nesse período também podem ampliar problemas já existentes. “Pessoas que têm um problema mais sério ou que estejam passando por algum transtorno de ansiedade ou alguma depressão, podem ter esses problemas exacerbados nessa fase, o que leva a um estresse muito grande”, destaca. Por si mesmo, é preciso estar atento aos sinais que podem revelar um nível alto de estresse. “Se a pessoa passa a apresentar lapsos de memória, está mais desorganizada, sofre com insônia, gastrite, por exemplo, é hora de procurar tratamento”, observa o psicólogo. Há, entretanto, quem supere o desafio de passar ileso pela ansiedade do fim do ano de outras formas. A pensionista Edith Moura, de 62 anos, também circulava pelo Centro carregando suas sacolas, mas, ao contrário da maioria, aguardava calmamente o sinal verde para atravessar a rua. “Eu tenho fé em Deus, minha filha. Com isso fica muito mais fácil enfrentar essa confusão”, argumenta. Já para o músico Odamir Bartholomeu, de 75 anos, que ficou duas décadas sem ter notícias da família, manter a esperança em dias melhores é a receita para espantar a depressão, principalmente na época das festas. Ele vive com outros 79 idosos no recanto Tarumã, é pandeirista e cantor do grupo. “Os Velhos Guris”, criado na instituição. “Aqui é só alegria, temos muito o que fazer, e ainda saímos para as apresentações. Quando alguém fica triste, corremos para ajudar.” O contagiante alto astral de “Seu Odamir” tem um motivo a mais dessa vez: ele reencontrou a filha, soube que tem dois netos e que passará o Natal com eles. “Estou muito feliz e procuro passar isso para os outros. Não devemos desanimar nunca”, ensina.
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