| Psicólogos e psiquiatras: Quais profissionais procurar? |
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| Escrito por Paulo Abreu | |||
| Qui, 25 de Dezembro de 2008 21:34 | |||
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Quando procurar tratamento com um psiquiatra juntamente ao tratamento de um psicólogo clínico? E como procurar bons profissionais para atendimento interdisciplinar. A pesquisa ativa ainda é a melhor resposta! Felizmente alguns cuidados podem auxiliar bastante na escolha adequada.
Começo afimando categoricamente que tenho lido alguns textos fantasiosos a esse respeito, quase todos descomprometidos em informar ao público o real estado da arte. Mas antes de iniciar, parece seminal para esse debate explicitar qual é a formação de cada profissional e como normalmente se dá seu trabalho na clínica, seja ela médica ou seja psicológica.
O médico psiquiatra é um profissional da área de saúde mental que passou pela graduação de seis anos em medicina e fez residência em psiquiatria, uma especialização de em média dois anos de duração. Por seu turno, para se formar psicólogo clínico o futuro profissional precisa cursar a graduação em psicologia, o que demanda cinco anos de estudos. A ênfase da formação do psiquiatra é o estudo dos substratos anátomo-fisiológicos relacionados às síndromes e as intervenções destinadas a restituir o funcionamento normal do organismo. A ênfase da formação do psicólogo clínico reside no estudo dos sistemas em psicologia, mais especificamente, na análise das interações entre o homem e seu ambiente, sobretudo social, conforme o entendimento das diferentes vertentes teóricas. Interessante notar que, grosso modo, o psicólogo clínico é um profissional que lida com exatamente os mesmos problemas a que se depara um psiquiatra em sua prática cotidiana.
Pela legislação brasileira vigente ambos os profissionais podem fazer psicoterapia, um trabalho em que terapeuta e cliente analisam conjuntamente os fatores que contribuem para os problemas de comportamento do cliente, com dados levantados desde o relato verbal do cliente e da relação terapêutica até a realização de tarefas orientadas para a mudança clínica. Contudo apenas o psiquiatra está autorizado a prescrever remédios pelo fato da legislação entender que somente esses profissionais tiveram formação acadêmica orientada.
Com o tempo as especificidades clínicas entre psicólogos e psiquiatras foram se distanciando. A cisão se deu tanto no campo científico quanto no campo profissional.
A moderna psicologia científica perseguiu a causa de muitos problemas de comportamento através da pesquisa empírica em laboratório, onde se manipulavam algumas condições ambientais com o objetivo de estudar sua influência na instalação e manutenção dos comportamentos característicos dos problemas humanos. Partindo dessa tradição, as intervenções propostas foram sendo gradativamente diferenciadas, tendo logo alcançado validação e replicação de resultados. Os psicólogos foram refinando os protocolos das chamadas "psicoterapias baseadas em evidências", formando historicamente uma identidade pautada no emprego e valorização dos métodos e técnicas psicoterapêuticas.
Semelhantemente a área acadêmica, o campo profissional começou a apresentar diferenças também marcantes. E não é preciso remontar muito na história. Os planos de saúde no Brasil, por exemplo, mostraram uma política de contenção de custos crescente. Nela é mais barato reembolsar uma consulta padrão de 15 minutos, onde o profissional consegue investigar o quadro clínico do paciente e prescrever uma medicação com relativo conforto. Por outro lado, sessões semanais de psicoterapia com aproximadamente 50 minutos de duração saem caro, não são rentáveis. Com o tempo o número de sessões disponibilizadas para os associados foi sendo limitado (isso quando o plano oferecia tratamento psicológico). É muito difícil fazer um bom trabalho psicoterapêutico com clientes depressivos ou ansiosos em apenas dez sessões, por exemplo. Esse é um número comumente liberado por muitos planos. Determinadas contingências profissionais levaram ainda mais os psiquiatras a abandonarem o trabalho com a psicoterapia e investirem nas terapias medicamentosas.
Nos Estados Unidos o quadro é bastante parecido. Os planos de saúde no país do Tio Sam, chamados de Managed Care, enxugaram a contratação de psicólogos clínicos. O resultado disso tudo – alguns estados cederam as prerrogativas para prescrição de medicamentos psiquiátricos por psicólogos, mediante formação adequada (especializações e doutorados), destinada a treinar os novos profissionais dentro das disciplinas e procedimentos médicos. A campanha foi endossada pela Associação Americana de Psicologia (APA), sob o forte argumento de que os estados tinham uma população muito grande para um contingente de psiquiatras extremamente pequeno, o que deixava frações territoriais desguarnecidas pelos serviços de saúde (quadro muito semelhante ao brasileiro). No estado do Novo México, Louisiana, território de Guam e nas forças armadas americanas os psicólogos habilitados passaram a ser chamados de psicólogos-médicos (psychologist-physician). Muito se tem elogiado o trabalho desenvolvido por esses profissionais. É fato que muitos laboratórios de psicologia dentro das universidades americanas já haviam mudado seus programas de pesquisa para interfaces cada vez mais relevantes com as pesquisas em neurociências. As prerrogativas ainda correm em muitos outros estados americanos para serem votadas (ver vídeo abaixo da Associação de Psicologia do Missouri). No Canadá uma mudança semelhante também está em andamento.
Historicamente as duas profissões competem pelo mesmo mercado, onde lamentavelmente se observam os reflexos dessa cisão nos serviços prestados à população, seja no âmbito do SUS, seja no âmbito privado e/ou dos planos de saúde. Mas quando é recomendável o trabalho conjunto de psicólogos e psiquiatras? Existem poucos critérios científicos para fazer essa escolha. Se recorrermos a literatura não encontraremos diretrizes confiáveis, de posse que as pesquisas são ainda bastante inconclusivas. Alguns estudos sinalizam que a associação do remédio à psicoterapia é melhor do que as modalidades em separado, sejam nos transtornos de humor, de ansiedade, esquizofrenias ou transtornos de personalidade. Acredita-se que o conhecimento necessário para esse tipo de conclusão surgirá a partir de mais estudos conjugados, nem somente de orientação psiquiátrica, nem somente de orientação comportamental. Mas é fato que atualmente, médicos psiquiatras e psicólogos historicamente tendem a desconhecer e até mesmo subjugar as pesquisas que estão sendo produzidas dentro da ceara do vizinho. É raro também os psicólogos debaterem seus casos comuns com médicos psiquiatras (e vice-versa), por todos os motivos já listados. O que ocorre muitas vezes é um profissional opinar junto ao cliente sobre o tratamento conduzido pelo outro especialista. Psicólogos não incentivam a medicação prescrita e psiquiatras desencorajam a psicoterapia. Quem sai perdendo, lógico, é o paciente.
Então quais seriam as recomendações básicas para os pacientes interessados em tratar seus sofrimentos sob uma atenção interdisciplinar? Bom, a primeira dica que antecede todas as outras: remédio prescrito a partir de diagnóstico psiquiátrico tem que ser feito pelo médico-psiquiatra, não outro especialista médico. Catastroficamente no Brasil a maioria dos antidepressivos (veja a reportagem da Folha On-Line), ansiolíticos (os famosos “calmantes”), alguns estimulantes psicomotores (ver Ritalina no TDAH), dentre outros, são prescritos por clínicos gerais, pediatras, cardiologistas, ginecologistas, etc. Embora a legislação médica permita essa prática é digno de nota que determinados profissionais não tiveram formação acadêmica adequada dentro das ciências psiquiátricas ou psicológicas, e por esse motivo, não têm preparo algum para lidar com os problemas comportamentais humanos. Lamentavelmente essa é ainda uma questão não resolvida dentro da classe médica, embora já esteja mais do que consolidada cientificamente.
Segue então a outra dica valiosa, imprescindível frente ao desencontro entre psiquiatras e psicólogos: procure profissionais que comprovadamente apresentem conhecimento e interesse genuíno pela área alheia. Um bom procedimento pode ser a pesquisa na internet sob bases de dados confiáveis e sites sérios (pesquise o nome do profissional no Currículo Lattes do CNPq ). De posse dessas fontes, procure saber:
Se conseguir entrar em contato com somente um dos profissionais dessa qualidade (psicólogo ou psiquiatra), facilita pedir um encaminhamento para o outro. Pode parecer um pouco de exagero mas a verdade é que o trabalho conjugado sai caro (no sentido mais amplo do termo), portanto, vale a pena ter esse cuidado. Na minha experiência clínica e na de muitos outros colegas se ouve relatos de que os pacientes se sentem mais protegidos sob o cuidado conjunto.
Obviamente as dicas listadas não pretendem esgotar todas as possibilidades. Meramente aqui se está tentando sinalizar a possibilidade de fazer uma boa escolha interdisciplinar mediante a pesquisa ativa. O ideal seria poder contar com um mesmo profissional gabaritado para os dois tratamentos. Contudo, diferente dos Estados Unidos, psicólogos brasileiros não têm formação médica adequada e por isso não podem prescrever medicamentos. Somado a isso a formação em psicoterapia dentro das residências brasileiras de psiquiatria deixa muito a desejar.
Sua saúde mental é tão importante ou mais do que qualquer outra área de sua vida, portanto, digna de uma atenção diferenciada. Então se vai investir dinheiro, boa vontade, melhor começar bem!
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| Última atualização ( Sáb, 29 de Janeiro de 2011 09:45 ) |











Com a evolução da farmacologia aplicada aos transtornos mentais como a depressão e a esquizofrenia, dentre outros, os médicos psiquiatras foram abandonando paulatinamente o trabalho psicoterápico a ponto de privilegiarem quase que exclusivamente o tratamento medicamentoso. O entusiasmo se deu com os achados científicos que mostravam correlações positivas entre a melhora dos sintomas de alguns quadros clínicos e a administração de determinadas drogas. Contudo continua a existir um descompasso muito grande entre a não descoberta das “causas biológicas” dos transtornos mentais e o sucesso parcial do seu tratamento. Até o presente momento não existem exames clínicos que apontem um agente causal comprovado para os mais diversos transtornos (com raríssimas exceções, a exemplo de um subtipo de transtorno obsessivo-compulsivo causado por uma infecção bacteriológica).
Comentários
Quando escrevi esse texto, de longe, não pensei que ele pudesse ter tal efeito. Mas sabe, é muito normal questionarmos o curso de graduação em algum momento. Felizmente, quando sobrevivemos a esse tipo de crise, saimos modificados. Mais resolutos, e com vontade de se dedicar a profissão escolhida.
Abraços,
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