| O que é psicoterapia baseada em evidências? |
|
|
|
| Escrito por Paulo Abreu |
| Sex, 04 de Setembro de 2009 23:03 |
|
È possível que a origem da preocupação com resultados mensuráveis em psicoterapia tenha ganhado vulto com o trabalho de Rosenzweig em 1936. O autor publicou uma tese na qual afirmava que a eficácia de um tratamento não atestava sua superioridade sobre o outro, mas que fatores comuns as diversas modalidades de psicoterapia seriam os fatores relevantes responsáveis pela melhora dos pacientes. Não haveria portanto qualquer fator específico a determinada psicoterapia que atestasse um desempenho superior. Dentro desse entendimento, diferentes abordagens seriam comparavelmente eficientes.
Quase 40 anos depois, ao examinarem uma centena de estudos comparativos, alguns pesquisadores encontraram diferenças não significativas entre as diversas modalidades de psicoterapia. A tese de fatores comuns versus fatores específicos foi revisitada e vem sendo pauta de controvérsias no debate da psicologia contemporânea. Felizmente muita coisa mudou no refinamento das metodologias de pesquisa de modo que essa dicotomia tenha sido, até certa medida, superada.
A investigação sobre a validade das psicoterapias tem sido dividida historicamente em três importantes períodos (chamados de gerações), cada qual com seus métodos e preocupações genuínas de pesquisa. A Geração I foi iniciada ao longo dos anos 50s e basicamente estava preocupada em responder ao questionamento de se a psicoterapia é efetiva em promover mudanças de personalidade. Nos anos 60s e 70s, com o início da terapia comportamental, os estudos da Geração II compararam diferentes métodos para problemas de comportamento cuidadosamente especificados. Era comum nesses tipos de investigação a seleção de pacientes com problemas-alvo, a exemplo da falta de habilidades sociais ou problemas de comportamento de crianças com desenvolvimento atípico, como o autismo. Nesses tipos de desenhos de pesquisa, era bastante frequente o uso de procedimentos baseados em diretrizes sistematicamente descritas e a atribuição randômica (portanto, aleatória) dos participantes em diferentes intervenções psicoterápicas (ditos situações experimentais).
As psicoterapias começaram a ser avaliadas segundo os mesmos critérios usados na pesquisa com medicamentos psiquiátricos. A repercussão desse movimento foi a adoção crescente dos manuais diagnósticos, como o "Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais" (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria. Em declaração política oficial publicada por volta de 1970, o então diretor do NIMH afirmou que o futuro da pesquisa sobre doença mental dependeria da compreensão e tratamento biológico dessas desordens. Como consequência desse esforço político, observou-se a “medicalização” crescente dos resultados da psicoterapia, ou seja, a construção da idéia de que se uma dada intervenção reduz sintomas, então ela teria seus efeitos comparáveis aos de uma medicação eficaz. A ênfase dos resultados passou a ser redirecionada para a remissão dos supostos sintomas dos portadores de “doenças mentais”. A partir daí os estudos passaram a ser chamados de ensaios clínicos randomizados e não mais estudos de resultado.
A aproximação das pesquisas em psicoterapia com os moldes médicos foi influenciada pelo restritivo mercado dos seguros de saúde americano, chamados de Atenção Gerenciada (Managed Care). Grosso modo, esses seguros seriam planos de pacotes pré-pagos em que os clientes pagariam pela cobertura médica a que tivessem interesse. Gradativamente esse sistema foi se desinteressando por psicoterapias de longa duração. Os tratamentos com medicamentos cresceram de importância pelos seus baixos custos e relativa rapidez. A psicologia clínica deveria portanto se pautar nos princípios médicos de pesquisa se quisesse ganhar mercado. Dizer de outra forma, deveria estar interessada na remissão rápida e eficaz dos sintomas das chamadas doenças mentais.
A despeito de nunca terem descoberto qualquer evidência de causalidade biológica para as doenças mentais (o que em tese desautorizaria alguém a chamar os comportamentos de “sintomas”, e portanto, assumir a existência de uma doença como a diabetes), o fato é que dado movimento histórico impulsionou a adoção de um rigor metodológico singular nas pesquisas de eficácia em psicoterapia. Esse foi um ponto bastante positivo para o crescimento e divulgação da ciência comportamental. Outro avanço foi o estreitamento do diálogo acadêmico entre médicos e psicólogos.
Preocupada em não perder a identidade teórica e empírica, hoje a pesquisa em psicoterapia tem variado suas metodologias de modo a dar conta de abarcar o rico fenômeno comportamental humano para além das investigações centradas no diagnóstico médico. Atualmente tem-se perseguido novos objetivos de pesquisa, a exemplo da pesquisa de processo terapêutico. Nela, se investiga ponto a ponto quais interações entre terapeuta e cliente são responsáveis por mudanças de comportamento do cliente. Esse tipo de modalidade é interessante por demonstrar algumas vezes por que alguns clientes depressivos ou ansiosos, embora não apresentam remissão dos sintomas, melhoram em outras áreas da vida como nos relacionamentos interpessoais, na habilidade de resolver problemas matrimoniais, na comunicação no trabalho, na definição de valores pessoais, etc.
Se é verdade que os novos paradigmas das psicoterapias baseadas em evidências se preocupam em melhorar a qualidade de vida de seus clientes de forma ampla, então é igualmente verdade que as metodologias de pesquisa têm de ser planejadas para descrever e mensurar sistematicamente mudanças extensas de comportamento na vida das pessoas em sofrimento psicológico.
No Brasil encontramos centros de excelência nessa área, como a linha de pesquisa coordenada pela Dra Sonia Meyer do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP.
Para saber mais: Neno, S. (2005). Tratamento padronizado: Condicionantes históricos, status contemporâneo e (in)compatibilidade com a terapia analítico-comportamental. Tese de Doutorado. Belém: Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Pará.
|











A Geração III teve início nos anos 80s e foi reflexo dos crescentes movimentos políticos vigentes. Naquela época o financiamento das pesquisas patrocinadas pelo National Institute of Mental Health (NIMH), instituição americana de pesquisa em saúde, começou a exigir um redirecionamento metodológico de encontro ao modelo de diagnóstico médico. No Programa Colaborativo para o Estudo da Depressão, por exemplo, era necessário que inventários diagnósticos fossem adotados na seleção dos participantes de pesquisa. Os populares Inventário Beck e Inventário Hamilton para depressão foram extensamente exigidos nas pesquisas com interesse na publicação em revistas científicas conceituadas. Na depressão, além desses inventários, outros inventários eram também aplicados para excluir da amostra os participantes que tivessem qualquer doença mental concorrente (como os transtornos de ansiedade ou de personalidade). A psiquiatria vinha perseguindo o construto de doença, conforme a tradição histórica da medicina, pautada na descrição de critérios diagnósticos assumidos como sendo exclusivos a determinada realidade psicológica (chamados de agrupamentos sindrômicos).
Comentários
Abraços,
Muito bom o artigo. preciso saber mais sobre esse assunto para me ajudar no doutorado em psicologia na argentina
Feed RSS para comentários deste texto