canais iacc

  • Receba notícias de nossos cursos!


    Receber em HTML?

newsletter

acesso restrito

blog

O Internamento Compulsório dos Dependentes de Crack

Submit to DeliciousSubmit to DiggSubmit to FacebookSubmit to Twitter

Impossível não atentarmos para as novas notícias que, de tão polêmicas, causam falta de consenso mesmo entre os especialistas. O internamento compulsório dos dependentes de crack no Rio de Janeiro e em São Paulo traz a tona uma motivação social nada nobre - a máxima de que o ideal seria o estado tirar os dependentes das cracolândias e interná-los contra a vontade. Justificam os governantes que essa é uma questão de saúde pública, e não uma penal. Bem da verdade é que a internação não recupera nem 5 % dos internados, conforme apontam as pesquisas em vários cantos do globo. A ciência é unânime em denunciar o fracasso do modelo do internamento para os dependentes químicos. Por outro lado, o tratamento ambulatorial ou via Centros de Atenção Psicosocial (CAPS-AD), de álcool e drogas, ainda que apresentem dados não tão superiores, parecem oferecer melhores perspectivas.

 

Em termos comportamentais, qualquer tratamento terapêutico que almeje algum sucesso precisaria servir como contexto para o desenvolvimento de novos comportamentos. E para isso é necessário não tirar o paciente do seu ambiente natural, do lugar em que terá que aprender a lidar com as fissuras pela droga ou com os novos desafios que se interporão. A título de exemplo, é do conhecimento de muitos que o dependente terá o desafio de aprender a conviver com novos grupos de pares, desenvolvendo habilidades sociais e interesses diferentes dos relacionados à droga. A reestruturação de uma vida abalada envolve também a procura de afazeres ocupacionais, como o trabalho remunerado, empreendimento que por si só, já ofereceria regularidade de atividades ao longo do dia. Conseguir que a pessoa desenvolva a satisfação por essa e outras atividades, como as envolvidas no lazer, esporte ou cultura, envolverá a programação sistemática de contextos para a interação da pessoa com o seu mundo. Esse é o trabalho terapêutico que as equipes multidisciplinares têm que realizar. A descoberta de novos valores ou objetivos de vida acontece como produto de todo esse processo.

 

Se tiro a pessoa de seu ambiente, não tem como o paciente desenvolver qualquer um desses novos comportamentos, pois acabo lhe privando de viver no contexto em que seus problemas ocorrem – ninguém vai consumir o crack internado dentro de uma clínica (ou ao menos não deveria), mas sim nas ruas. Logo a justificativa para o internamento, com base no discurso da desintoxicação, é uma muito fraca. Não que não seja necessário o acompanhamento médico das síndromes de abstinência. Mas a forma como é feita no internamento é que é o entrave. A desintoxicação é algo bastante aversivo para o paciente. Agora, soma-se a isso, ter que fazer de maneira compulsória, imposta por outro! O resultado disso tudo é o que o dependente nunca mais irá sequer querer ouvir falar de tratamento.

 

Mudemos então de questão. Já sabemos de antemão que, definitivamente, o internamento, infelizmente, não vai tirar ninguém do crack. Nem o meu,  nem o seu, e nem o filho de ninguém. A pergunta deveria ser outra então, como a de “quem ganha com o internamento forçado”? 

 

Quantias cada vez mais vultosas destinadas a sanar o problema do crack vão enriquecer os profissionais que insistem no discurso do internamento. Mas o fato é que a revitalização urbana das cracolândias é uma coisa que muitos desejam, sobretudo os comerciantes vizinhos que tiveram seus negócios prejudicados. Não estou aqui contestando as mazelas sócio-econômicas que essas áreas trazem para a cidade e para os cidadãos. Crimes e violência são uma realidade. Certamente elas têm que ser abordadas com a devida seriedade, e os envolvidos precisam responder pelos seus delitos como qualquer outro cidadão. Não é o caso de condenar o uso da droga pela droga, mas sim os comportamentos infratores envolvidos. Mas daí, novamente, estaríamos falando de uma outra coisa, não da esfera da saúde. 

 

Precisamos de transparência no porquês das decisões governamentais. A associação arbitrária com a bandeira da saúde parece ser um problema. O discurso do tratamento da doença vem obscurecendo a real motivação para o internamento compulsório. Dessa forma, mobiliza-se a opinião pública que acaba comprando uma causa de maneira desinformada. Alguém aí notou alguma familiaridade com a propaganda veiculada pelos antigos manicômios, aqueles lugares em que eram despejados os excluídos sociais? Eram prostitutas, bêbados, bandidos, etc. Basaglia e Foucault não me deixariam mentir. Afirmar esse fato já não é nenhuma extravagância.

 

Mas então por que insistir nisso? 

 

Seria talvez mais sensato separarmos os discursos, ou melhor, os problemas. Saúde do social. Problemas de saúde pública deverão ser regidos pela ciência preocupada com a efetividade de seus tratamentos. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa, é outra coisa. Saúde não pode ser o elemento “laranja” das políticas públicas.  

Comentários   

0 #5 internamento involuntarioMaria do Carmo 18-08-2012 22:50
Como e animador ouvir esta afirmaçao " Eu mesmo sai da droga por causa da internaçao. " porque neste mes , meu irmao foi internado compulsoriament e pela primeira vez, que seja a ultima em nome de Jesus.
Citar | Reportar ao administrador
0 #4 O ambiente negligenciadoPetrus Evelyn 02-07-2011 09:49
Bom, nas clínicas de internação no meu estado (e nos estados próximos) não existe "alta-assistida ", na verdade, o paciente está "por si só" quando recebe alta e para mim, este é o problema. Não sei como é numa clínica realmente cara e avançada, mas nas daqui (Ceará, que só perde pra Bahia nas melhores clínicas do nordeste) eles não avaliam como é o ambiente natural da pessoa, como é a casa da pessoa, quais são seus problemas particular - aliás, não existe um tratamento personalizado. A maioria das clínicas pegam apenas o modelo de 12 passos dos Narcóticos Anônimos, colocam algum embasamento psicológico naquilo e dão o mesmo tipo de tratamento para viciados em drogas, sexo e jogo, que é basicamente "Não fuja dos seus problemas através das drogas ou do sexo ou do jogo", "evite lugares, hábitos e pessoas do uso" etc.

E acredito que seja assim em 90% das clínicas Brasil a fora, mas não tenho estatísticas. Elas simplesmente não se preocupam com a mudança ambiental de cada um!
Citar | Reportar ao administrador
0 #3 Modelo de tratamentoPaulo Abreu 01-07-2011 21:03
Olá Petrus,

Seja bem vindo ao blog! O objetivo dele é justamente fomentar o debate.

Seu caso parece que foi muito particular, talvez você se encontre nos 5% que ficaram sem recaídas após o internamento. Mas infelizmente as estatísticas das pesquisas representam as grandes amostras, não os casos isolados. E nesse sentido, os dados que temos disponíveis não variam muito.

Mas Petrus, perceba que eu não sugeri nenhuma modalidade de tratamento em específico, seja ela farmacológica ou psicoterápica. O que afirmei foi que qualquer tratamento que almeje eficácia deverá lidar com o indivíduo em seu meio natural. Fiz isso por um motivo inegável – os tratamentos são ainda ineficientes. O modelo que você citou, baseado no internamento para reestruturação do paciente e na alta-assistida, é justamente o modelo vigente que não deu certo. Se algo existe de positivo nesse modelo, então muita pesquisa precisará ser feita para investigar quais são as suas falhas.

Mas concordo com você que o grande desafio de um tratamento ambulatorial nos moldes que defendo aqui teria que lidar com o período de crise, da fissura. A literatura traz alguns dados interessantes a esse respeito.

Abraços,
Citar | Reportar ao administrador
0 #2 Equivocos do textoPetrus Evelyn 01-07-2011 12:45
e só então, liberar o paciente da internação, fazendo um acompanhando do seu ambiente e como ele está indo na sua readaptação.

Fazer uma modificação ambiental no usuário ele ainda estando nesse meio seria praticamente impossível. Como evitar amigos usuários e mudar, drasticamente, os comportamentos emocionais gerados em casa que servem de gatilho para a vontade de uso de drogas? Não é possível frequentando CAPS, pois tal tratamento "dentro de casa" geraria uma grande mão-de-obra muito mais complexa do que no tratamento em clínicas.

As clínicas possuem falhas? Com certeza. Mas não creio que elas sejam piores que os tratamentos ambulatoriais e CAPS ou até mesmo apenas os Narcóticos Anồnimos e afins. O que precisa mudar nas clínicas são as formas como ela trabalha a adaptação - e logo as alterações - no ambiente natural do usuário, que isso pode ser chamado de pós-internação, no qual, atualmente, é feito um péssimo serviço.
Citar | Reportar ao administrador
0 #1 Equivocos do textoPetrus Evelyn 01-07-2011 12:41
Sou dependente químico e estudante de psicologia. Fui internado, frequentes antes o CAPS. Não sei como funciona na sua cidade, mas o CAPS-AD não tem melhores resultados que as internações de modo algum. De fato, os que frequentam apenas vão lá para manter as aparências em relação aos outros, mas continuam usando drogas do mesmo jeito, já que o CAPS não trabalha com a alteração do ambiente da pessoa.

Você afirma "Já sabemos de antemão que, definitivamente , o internamento, infelizmente, não vai tirar ninguém do crack."

Essa sua afirmação é perigosa e errada. Eu mesmo saí da droga por causa da internação. Mas é claro, ela possui falhas e concordo com você que deve haver uma modificação no ambiente, mas não na forma como você afirma. Acredito que o primeiro a fazer é dar um ambiente diferenciado para a pessoa desintoxicar (internação) e após isso, ainda internado, fazer um trabalho de preparação da pessoa para que ela possa alterar o seu ambiente. (Continua)
Citar | Reportar ao administrador

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar