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Relações Comportamentais no Autismo
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Escrito por Paulo Abreu   
Sex, 29 de Abril de 2011 19:13

Ontem no caderno Equilíbrio e Saúde da Folha foi publicada uma matéria comunicando os benefícios em se diagnosticar o autismo precocemente em bebês de até 12 meses. A matéria sabidamente trouxe ao conhecimento do público brasileiro os resultados de uma pesquisa publicada recentemente no Journal of Pediatrics, importante revista científica com pesquisas na área.

 

O motivo da importância do diagnóstico precoce – em sendo logo constatado o problema, a criança diagnosticada seria então submetida mais rapidamente à terapia comportamental, cujos procedimentos baseados em evidências têm sido referenciados como o tratamento de escolha.

 

Por um lado fiquei bastante satisfeito por ler uma matéria de saúde mental que de fato se ateve aos dados. Mas me chamou a atenção o componente ativo da terapia comportamental apontado pelo jornalista – “ela estimula as áreas do cérebro afetadas”.  Ou seja, o trabalho da análise aplicada comportamental, sob esse prisma, seria reduzida apenas a “estimular o cérebro”. Fico encasquetado me perguntando o que se entende por “estimulação cerebral”  - e confesso que tenho medo de perguntar pelo que viria como resposta! O fato é que ninguém consultou um psicólogo da área, ainda que dado tratamento nos diga à respeito.

 

Acredito que esse viés do jornalista ocorreu pelo fato da revista Pediatrics estar hospedada dentro da ceara mais ampla da medicina, a pediatria, ou devido à opinião de algum médico psiquiatra consultado.

 

Mas vamos as correções:

 

Os principais problemas do autismo são notadamente a dificuldade de socialização e a linguagem comprometida. Na linguagem, em especial, uma abordagem neurocientífica estudaria as relações do cérebro e outros processos neurológicos. Esses tipos de investigações poderiam, por exemplo, demonstrar correlações fisiológicas entre os comportamentos de falante e ouvinte de uma criança submetida à Ressonância Magnética Funcional. Contudo,  nesse exame, a observação do consumo de glicose nas áreas cerebrais não explicaria os contextos em que o comportamento verbal da criança ocorre. Todo comportamento tem correlatos orgânicos, mas somos organismos em interação com o ambiente. As determinações do que fazemos se encontram na nossa história e nas circunstâncias ambientais, sobretudo as sociais, nas quais nos comportamos.

 

Ninguém explicaria a habilidade do Pelé para o futebol a partir dos movimentos dos músculos e tendões de suas pernas – contrariamente, optamos por lembrar do histórico de treinos e jogos, especialmente os das copas de 58, 62 e 70! Genética e fisiologia estão ligadas a produção das atividades motoras, mas se as condições suficientes e adequadas para a aprendizagem não tivessem acontecido, Pelé não faria gols.

 

Redefinindo o trabalho do terapeuta comportamental para os pais: no déficit de linguagem, por exemplo, as terapias funcionam por serem constituídas de procedimentos cientificamente validados para o ensino sistemático do comportamento verbal. Estamos particularmente preocupados em desenvolver situações propícias para o ensino/aprendizagem de habilidades verbais, desde as mais simples até as complexas.

 

Os dados presentes até o momento mostram que mesmo cérebros lesionados podem ser modificados anátomo-fisiológicamente se as intervenções ambientais forem intensivas e planejadas. A ciência do comportamento está preocupada com as intervenções ambientais, promovendo novas relações do autista como o seu mundo. Modificações no cérebro são as conseqüências dessas novas relações comportamentais, mas nunca a causa.              

 

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