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A terceira onda de terapia
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Escrito por Paulo Abreu   
Sáb, 18 de Dezembro de 2010 08:34


Quando todo mundo o olhava, sua boca apenas abria e fechava de forma inaudível, como se fosse um brinquedo quebrado. Seu coração acelerou, e ele pensou que estava tendo um ataque. Hayes tinha 29 anos.      

 

Eventualmente os ataques tinham remissão, mas uma semana mais tarde acontecia outro episódio, em outro encontro. Nos dois anos que se seguiram, os ataques de pânico tornaram-se mais freqüentes. Sentimentos arrasadores de ansiedade colonizaram cada vez mais sua vida terrena. Por volta de 1980, Hayes palestrava com grande dificuldade, não andava de elevador, e nunca andava até um cinema ou comia em qualquer restaurante.  Por que não podia ensinar muito, ele frequentemente apresentava filmes em sua aula, e suas mãos tremiam tanto que Hayes mal conseguia colocar o filme de 8 mm no projetor. Como estudante, ganhou sua vida em modestos programas no colleges da California e West Virginia e em um intercâmbio na Brown Medical School, com o ilustre psicólogo David Barlow. Hayes tinha esperança de se tornar um professor em tempo integral por volta de seus 30 anos, mas o que era para ser uma carreira promissora acabou se paralisando.

 

Hoje Hayes completará 57 anos em agosto, não tem ataques de pânico já faz uma década, e ainda está no topo de sua área. Foi presidente da distinta Association for Behavioral and Cognitive Therapies, autor e co-autor de aproximadamente 3 00 artigos científicos e 27 livros. Poucos psicólogos publicaram tanto. Seu mais recente livro, que foi publicado com a ajuda de Spencer Smith, carrega o título de auto-ajuda “Saia de sua Mente & Para a sua Vida” (em inglês, Get Out of Your Mind & Into Your Life; New Harbinger Publications, 207 páginas). Mas o livro, que ajudou a impulsionar Hayes em um amargo debate na Psicologia, tem duas notáveis características nada usuais para um manual de auto-ajuda: o livro diz logo no início que não poderá curar a dor do leitor (a primeira sentença é “As pessoas sofrem”), e aconselha os que sofrem a não lutarem contra os seus sentimentos negativos, mas aceitá-los como parte da vida. Felicidade, diz o livro, não é o normal.



Se Hayes está correto, a forma como a maioria de nós pensa a Psicologia está errada. Desde os anos em que Hayes  sofreu o primeiro ataque de pânico, a abordagem chamada terapia cognitiva se tornou o padrão ouro (com ou sem o acréscimo de remédios) para uma grande variedade de doenças mentais, da depressão ao estresse pós-traumático. E ainda que um bom terapeuta cognitivo nunca vá aconselhar um paciente com pânico a tentar se desvencilhar de sua ansiedade, a principal estratégia de longo prazo da terapia cognitiva é atacar e, em última instância, alterar os pensamentos negativos e crenças, ao invés de aceitá-las. “Eu sempre estrago tudo no trabalho”, você poderá pensar. Ou “Todo mundo está olhando para a minha barriga, ou “Eu não posso ir a esse encontro sem beber nada.” Parte mentor, parte técnico, parte inquisidor, o terapeuta cognitivo questiona esses pensamentos: Você realmente estragou tudo no trabalho em todos os momentos, ou como a maioria das pessoas, você se excedeu algumas vezes ou errou? Todos estão realmente olhando para a sua barriga, ou você está super-generalizando a forma com que as pessoas lhe vêem? A ideia é que o terapeuta irá ajudar o paciente a desenvolver uma nova crença, mais realista.    

 

Mas Hayes e outros pesquisadores renomados, especialmente Marsha Linehan e Robert Kohlenberg da Universidade de Washington em Seattle, e Zindel Segal, da Universidade de Toronto, estão focando menos em como manipular o conteúdo de nossos pensamentos e mais em como mudar o seu contexto – como modificar a forma com que nós vemos pensamentos e sentimentos de modo que eles não consigam nos derrubar e controlar nosso comportamento. Segal chamou esse processo de desidentificação com os pensamentos – distanciando-os do que nós somos e os olhando como meras reações. Você pensa que as pessoas olham para a sua barriga? Talvez isso seja verdade. Talvez sua barriga seja enorme. Talvez eles nem olhem; muitos de nós somos tão severos com nós mesmos. Mas Hayes e outros terapeutas da mesma opinião não tentam aprovar ou desaprovar esses pensamentos. Onde os terapeutas cognitivos falam de “erros cognitivos” ou “interpretações distorcidas”, Hayes e colegas ensinam o mindfulness, a prática inspirada na meditação em que se observam os pensamentos sem se misturar a eles, abordando-os como se fossem folhas flutuando ao vento (“... Eu quero café/eu deveria trabalhar fora/eu estou deprimido/nós precisamos de leite...”). Hayes é o mais distinto e ambicioso dos psicólogos da terceira onda, assim chamada por terem vindo da segunda onda terapia cognitiva, que por sua vez, adveio da primeira onda de terapia comportamental impulsionada em parte por B F Skinner (terapia comportamental, ao seu tempo, rompeu com o modelo de Freud por enfatizar os comportamentos observáveis e não os significados escondidos e sentimentos) ***

 

Hayes e os outros psicólogos da terceira onda dizem que tentar corrigir os pensamentos negativos pode, paradoxalmente, intensificá-los, da mesma forma que a pessoa em dieta que se mantém dizendo para si mesma “Eu realmente não quero pizza” acaba ficando obsessiva pela... pizza. Alternativamente, Hayes e aproximadamente 12.000 estudantes e profissionais que foram treinados nessa modalidade de psicoterapia, chamada Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), dizem que nós deveríamos reconhecer que pensamentos negativos recorrem ao longo da vida. Ao invés de mudá-los, segundo Hayes, nós deveríamos nos concentrar em identificar e se comprometer com os nossos valores. Somente quando nós nos tornarmos capazes de vivenciar as emoções negativas, defende, acharemos mais fácil descobrir o que a vida deveria ser e assim seguir em frente. Isso é mais fácil de falar do que fazer, obviamente, mas o ponto frisado pelo autor é que é difícil pensar sobre as coisas grandes quando nós estamos tenazmente tentando regular o nosso pensamento.

         

O modelo cognitivo permeia completamente a cultura de forma que muitos de nós não pensamos em nomear isso, o que é exatamente o que os psicólogos fazem. Quando Phillip McGraw ("Dr. Phil") dá algum conselho, por exemplo, muito do que ele diz advém desde a perspectiva cognitiva. “Você está criando ativamente um ambiente tóxico para você mesmo?” ele pergunta em seu website. “Ou as mensagens que você dá a si mesmo são caracterizadas por um otimismo racional e produtivo?” As abordagens cognitivas foram desenvolvidas nos anos de 1950 e início dos anos 60’s por dois pesquisadores que trabalhavam independentemente, o psiquiatra Aaron Beck da Universidade da Pennsylvania, agora com 84, e Albert Ellis, 92, um psicólogo da cidade de Nova York. A ascensão dessa terapia foi rápida, particularmente na academia. Ainda que muitos terapeutas ainda pratiquem uma forma evoluída de análise freudiana chamada de terapia psicodinâmica, é difícil encontrar um terapeuta treinado nos últimos 15 anos que não tenha aprendido o modelo cognitivo.      



O debate entre os terapeutas cognitivos e as críticas da terceira onda é algumas vezes misterioso e de pequena escala, mas poucas questões parecem tão elementares para a psicologia como a que se nós devemos aceitar o tormento interior ou analisar nossa forma de lidar com ele. Hayes foi recebido em Washington com reverência na última convenção anual da Association for Behavioral and Cognitive Therapies – e asco. Não é incomum ver terapeutas o abordando entre apresentações como se ele fosse o Yoda. (Hayes já despertou inúmeras impressões: “Eu vejo essa concepção de aceitação, a concepção de mindfulness, como tendo o poder de mudar o mundo”). Mas os céticos desqualificam-no em qualquer lugar. “Ele certamente tem seguidores, e mesmo uma comitiva”, diz o professor de psicologia Michael Spiegler da Providence College. “Mas eu acredito que algumas coisas que ele faz são semelhantes às de um culto religioso em termos desse tipo de seguimento, de concordar incondicionalmente com tudo, ou se você não acredita, então não participa”.



 

Pôr do Sol

Quando você apenas lê essa palavra, nenhum outro evento além do movimento de seus olhos ocorre. Mas a sua mente pode ter corrido por inúmeras direções. Talvez você tenha pensado em um lindo pôr do Sol. E então talvez você tenha pensado no lindo pôr do Sol que fez no dia em que a sua mãe faleceu, o que pode ter evocado tristeza.  



Hayes usa esse exercício para argumentar que seus pensamentos podem ter conseqüências inesperadas. “Saia de sua Mente & Para a sua Vida” ilustra essa irrealidade através de uma citação de um estudo da revista Psychological Science em que 84 participantes foram solicitados a manter um pêndulo parado. Alguns outros foram solicitados não somente a manter um pêndulo parado, mas também a não moverem o pendulo lateralmente. O último grupo tentou mover lateralmente o pêndulo com mais freqüência do que o grupo que meramente foi solicitado a manter o pêndulo parado. Por quê? “Por que pensar em não mover [lateralmente] ativa exatamente os músculos que movem o pêndulo”, escrevem Hayes e Smith. Com certeza os terapeutas cognitivos não pedem para a pessoa para suprimir os pensamentos negativos, mas nos pedem para desafiá-los, para então consertá-los.    

 

Por contraste, a ACT tenta desarmar o poder dos pensamentos. No lugar de “Eu estou deprimido”, “Ela lhe propõe ‘eu’ estou tendo o pensamento de que eu estou deprimido”. Hayes não diz para as pessoas não sentirem dor (ele tem plena consciência disso) mas acredita que transformamos dor em sofrimento quando nós tentamos nos livrar dela. Terapeutas ACT usam metáforas para explicar a aceitação: “É mais fácil arrastar uma corrente pesada atrás de você ou pegá-la e levá-la consigo?”  

 

A parte do comprometimento da Terapia de Aceitação e Comprometimento – viver de acordo com os seus valores, parece superficial a primeira vista. Muitas pessoas estão tão deprimidas ou presas em seu dia-a-dia de forma que elas não têm certeza de seus valores. Terapeutas ACT ajudam você a identificá-los com técnicas como a em que você escreve o seu epitáfio. Eles também pedem para você verbalizar suas definições de bom pai ou bom trabalhador. O terapeuta ajuda você a pensar sobre que tipo de coisas você gostaria de aprender antes de morrer, como você vai passar seus finais de semana, como você pretende explorar a sua fé. O ponto não é encher o seu calendário com lições de italiano ou viagens de pesca, mas reconhecer que, por exemplo, você gosta de pescar porque isso significa passar tempo com a sua família, ou nas montanhas, ou sozinho – “não importa o que é estar em pescaria para você”, afirma Hayes. Uma tarefa do “Saia de sua Mente & Para a sua Vida” pede para você dar a você mesmo escores de 1 a 10 em cada semana ao longo de 16 semanas para mostrar em que medida suas ações diárias condizem com os seus valores. Se você realmente gosta de esquiar com os amigos, mas acaba assistindo TV sozinho todo o final de semana, você ganhará um 1. (Mas se você realmente ama assistir as reprises do The O.C., faça isso; a ACT é plenamente sem julgamentos.)              



Parece até agora que tudo isso soa vago ou como auto-ajuda engessante. Mas a pesquisa científica com a ACT tem até agora demonstrado resultados relevantes.  Na edição de janeiro da revista Behaviour Research and Therapy, Hayes e mais quatro autores revisaram 13 delineamentos que comparam a efetividade da ACT depois de um ano em comparação com outros tratamentos.  Em 12 delineamentos dentre 13, a ACT superou os outros tratamentos. Em dois desses estudos, pacientes depressivos foram submetidos randomicamente a terapia cognitiva ou a ACT. Depois de dois meses, os pacientes submetidos à ACT apresentaram um escore médio de 59% de diminuição em uma escala de depressão. Alguns desses estudos foram pequenos, com apenas 39 pacientes, contudo a ACT apresentou uma vasta aplicabilidade. Em um estudo de 2002, Hayes e um estudante acompanharam 70 psicóticos hospitalizados que receberam medicação padrão e aconselhamento. Metade deles foi submetida randomicamente a sessões de 45 min de ACT; a outras metade formou o grupo controle. Quatro meses depois, os pacientes submetidos à ACT foram reospitalizados com 50% menos freqüência. De fato, eles admitiram ter tido mais alucinações do que os participantes do grupo controle, mas a ACT diminuiu a crença nessas alucinações, que foram vistas agora com menos desapego. Hayes gosta de dizer que a ACT efetivamente mudou “Eu sou a rainha de Sheba” para “Eu estou tendo um pensamento de que sou a rainha de Sheba.” Os psicóticos ainda ouviam vezes, mas não agiam com base nisso. Eles aprenderam a acompanhar seus pensamentos de forma mais desprendida, aumentando sua flexibilidade psicológica.    

       

A ACT também apresentou resultados promissores no tratamento da adição química. Em um estudo, usuários de drogas relataram menos uso com a ACT do que com um tratamento dos 12-passos. A ACT funcionou melhor do que os adesivos de nicotina para 67 fumantes que estavam tentando parar de fumar. A ACT encorajou os adictos a aceitarem a fissura pela droga e a dor que viria quando parassem de usá-la – depois trabalhou como seria a vida além do “barato” causado pela droga. A ACT foi também usada para ajudar os pacientes com dor crônica a voltar mais rápido para os seus trabalhos. Mas talvez o resultado mais marcante tenha sido um estudo em 2004 com 27 pacientes sul-africanos epilépticos institucionalizados, em que com apenas nove horas de ACT, experienciaram ataques menores e com menos freqüência do que o grupo placebo em que o terapeuta oferecia apenas uma escuta suportativa.  

     

Obviamente, Hayes não sabe exatamente como a ACT funciona em todos os casos, mas ele acredita que tem algo relacionado com aprender a enxergar as nossas batalhas – mesmo os ataques de epilepsia – como parte integral e válida de nossas vidas. Recentemente, um paciente da ACT terapia de São Francisco enviou um email de pedido de ajuda para Hayes. “Como eu consigo fazer isso (viver uma vida de valor, com significado) em meio a uma experiência privada desabilitadora e opressiva (ansiedade, depressão, falta de energia, inércia) não está claro para mim. Como alguém apenas pode dizer ‘para o inferno com isso’ pois eu vou escolher viver, ir de encontro a vida que eu valorizo, a despeito de se sentir horrível 24 horas por dia??”    


Hayes abriu esse email as 3:00 da manhã, depois que seu filho recém-nascido o acordou chorando. Aproximadamente as 4:04, ele enviou uma longa resposta que dizia, em parte, “Você está me perguntando, ‘ eu posso viver uma vida de valor, mesmo com a minha dor?’ Deixe-me fazer uma pergunta diferente. Como seria se você não pudesse ter a segunda sem primeira? E se a maneira habitual com que você se preocupa com as coisas significa que você irá se machucar. Mas não aquela dor pesada,fétida, avaliativa, categorizada e previsível que tem esmagado você. Ao invés disso uma dor aberta, clara, mais suave, que vem de um ser mortal que eventualmente irá perder tudo e ainda aqueles com quem se importa.



 “Imagine um universo em que seus sentimentos, pensamentos e memórias não são os seus inimigos. Eles são a sua história trazida no presente contexto, e a sua própria história não é a sua inimiga”



Hayes fala dessa mesma forma nos workshops ao redor do mundo, e a mistura de seu discurso e do desempenho inicial sólido registrado nas publicações científicas, criou seguidores da ACT em pelo menos 18 países. Hayes espera 400 participantes na conferência sobre a ACT em Londres que ocorrerá em julho. Há terapeutas ACT na maioria dos estados; eles são listados no site contextualpsychology.org. A ACT vem sendo usada em uma clínica em Tucson, Arizona, Jefferson City, Missouri, prisão e programa de gerenciamento da raiva em Minneapolis, Minnesota. Um terapeuta na Espanha a usou com sucesso para tratar a disfunção erétil de um homem de 30 anos; um terapeuta na Inglaterra usou a ACT com um “perseguidor” (stalker).      

 


Mas irá a ACT substituir o padrão ouro da psicoterapia?



O terapeuta cognitivo mais renomado tem sido Beck, um psiquiatra da Universidade da Pennsylvania que primeiro formulou o papel dos pensamentos na depressão em artigos de 1963 e 1964. O receptor de quase todos os prêmios da área, Beck e sua filha Judith Beck de 51 anos, ela mesma uma psicóloga estimada, coordenam o Institute for Cognitive Therapy and Research em um prédio coorporativo perto da Filadélfia. Decorado com uma colcha Amish feita à mão, o sem fins lucrativos parece mais o consultório rural de dentista do que a sede de um movimento internacional na psicologia. Mas o instituto guarda cuidadosamente a reputação da terapia cognitiva. Por causa da influência da organização, é difícil para um terapeuta cognitivo obter boas referências sem a certificação da casa, o que envolve uma aplicação de U$400.      



Como na ACT, a terapia cognitiva divide sua personalidade com o seu co-fundador. O biógrafo de Beck, um psicólogo da Brown chamado Marjorie Weishaar, escreveu que em sua juventude, Beck tinha fobia de túneis e ansiedade para falar em público. Ele resolveu ambos os problemas corrigindo as distorções que desenvolveu: “Um dia, chegando no túnel Holland, ele interpretou o aperto em seu peito como um sinal de que estava sufocando”, Weishaar escreveu. Ele não estava, obviamente, e quando “trabalhou esse pensamento cognitivamente”, a fobia desapareceu. Similarmente, seu medo de público diminuiu “com a prática contínua do desafio de pensamentos automáticos”.      

 

Quando pela primeira vez eu vi Beck na convenção sobre a terapia em novembro, eu o confundi com um patrício tímido, a imagem que ele projetou com seu cabelo branco aparado, gravata borboleta, jaqueta de lã, meias cinzentas e uma risada paternal. De fato, Beck - o filho de um pai ucraniano socialista e de uma mãe russa “nada dominante”, de acordo com Weishaar – é um defensor incansável de sua terapia. Ele falou estupefato comigo sobre a terceira onda de terapias. “Eu não penso que você possa chamar algo de revolução até que isso realmente aconteça”, disse rindo. “Você tem abordagens novas e populares que vêm, e freqüentemente morrem, e elas não têm a validação empírica.” Ele comparou as novas terapias com o “toque-e-sinta-as-coisas” dos anos 60’s e 70’s. (Os críticos de Hayes tem comparado seus workshops com os caprichosos, seminários cults do leste dos anos 70’s, que levou centenas a salões de hotéis em busca de mudanças prometidas por um ex-vendedor de carros usados, John Rosenberg, que chamava a si mesmo de Werner Erhard)        

           

Beck disse que “vale a pena” tentar as terapias de mindfulness , e ele pontuou que sempre disse que a aceitação da dificuldade dos pensamentos pode ter um papel importante no início da terapia. Mas semanas após essa conversa, o debate entre os seguidores de Beck e os de Hayes se tornou amargo. Logo após retornar da conferência, Robert Leahy, presidente eleito da Academia para a Terapia Cognitiva (presidente corrente: Judith Beck), postou uma mensagem na lista da academia dizendo que a linguagem da teoria de Hayes soa menos como ciência e mais como um quadro de referência para uma nova religião...   Nós todos já não estivemos nesse caminho escuro antes?” Outro terapeuta cognitivo, Bradford Richards, respondeu “Isso me lembra muito um culto pseudocientífico impulsionado por uma vontade pessoal.”      



Ao seu turno, Beck é co-autor em um artigo publicado no volume mais recente da revista Clinical Psychology Review onde frisa que a terapia cognitiva “é uma forma de psicoterapia das mais extensivamente pesquisadas”. O artigo resume o resultado de 16 estudos, totalizando 9.995 participantes, que encontrou um efeito relevante da terapia cognitiva no tratamento da depressão unipolar, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do estresse pós-traumático, fobia social e transtorno do pânico, o problema do Hayes. A terapia cognitiva de alguma forma também se mostrou superior aos medicamentos antidepressivos. Depois de me enviar o artigo, Beck enviou um email dizendo, “A última vez que proclamaram uma nova onda... foi a proclamação da ‘psicologia transpessoal’, que propõe demonstrar alguma força mística entre os indivíduos, incluindo, eu acredito, a reencarnação da alma.”      



Mas mesmo alguns terapeutas cognitivos admitem que apesar dos 40 anos de pesquisa, algumas questões fundamentais sobre a terapia cognitiva ainda não foram respondidas. Isso acontece em parte porque a terapia cognitiva envolve uma variedade de técnicas. Em adição ao questionamento dos pensamentos negativos no consultório de terapia, os terapeutas cognitivos usam as tarefas de casa oriundas da abordagem comportamental – por exemplo, pacientes fóbicos podem ser solicitados a exporem a si mesmos aos seus medos (como Beck atravessando o túnel). Clientes depressivos são encorajados a agendar atividades regulares. Mas se a terapia cognitiva é tudo isso, dizem os críticos, talvez a melhora seja meramente uma questão de mudar os comportamentos, e não questionar os pensamentos negativos.

 

Beck hipotetiza que os componentes cognitivos da terapia - desafio de pensamentos, desenvolvimento de novas crenças – adicionam seu valor nas mudanças de comportamentos do dia a dia e nas rotinas que a terapia encoraja. Mas ele reconhece que nenhum delineamento de pesquisa provou isso ainda. De fato, uma equipe da Universidade de Washington achou em dois estudos que os componentes cognitivos da terapia para a depressão não somam em nada. Entre os depressivos mais severos, técnicas comportamentais, como criar novas rotinas e agendar atividades, funcionam tão bem quanto um medicamento antidepressivo e significativamente melhor do que a terapia cognitiva. Quando eu questionei Beck sobre esses estudos, ele os chamou de “intrigantes” mas – desde que nenhum outro laboratório tenha produzido resultados semelhantes – “nada ainda está provado”.      



 

Reno, Nevada, não vem imediatamente à mente como o lar base para um guru do mindfulness, mas Hayes tem ensinado no campus da Universidade de Nevada em Reno por 20 anos. Dirigir até a sua casa me levou a passar por um número de cassinos tristes onde você podia ver jogadores desfigurados tentando a sua sorte às 6:00 da manhã; com as luzes tremeluzentes das frestas em seus olhos inexpressivos.



Hayes é alto, completamente careca e apaixonado por estranhas combinações de figurino. Em um dia quando nós nos encontramos, ele vestia sapatos de couro preto com uma grande fivela fora de moda, calças cinza curta e um casaco gigante trespassado. Uma vez ele já viveu em uma comunidade, e ainda usa um enorme anel que disse ter sido feito por índios Zunis. “Eu negociei ele de algum contrabando nos anos 60’s em Taos”, ele me disse. Seus críticos irão achar engraçado o fato de que Hayes esteve, anos atrás, em dois treinamentos orientais em Atlanta. Ele admite que também esteve em seminários sobre meditação, palestras “eco-estranhas”, festas “alucinógenas”  e outras extravagâncias do estilo de vida radical dos anos 70’s.          



Ainda que ele tenha um adesivo anti-Republicano colado em seu carro, o carro é um Chevrolet Avalanche vermelho “não- chamativo”. A peça mais proeminente de seu escritório é um equipamento de ginástica, e ele tem um daqueles sofás de massagem Sharper Image. Ele passa seus dias de folga cuidando de seu quarto filho, Steven Joseph, de 5 meses de idade, ou o que não é raro – construindo coisas para a sua casa. Nesses dias Hayes está um pouco embaraçado pelos excessos de sua juventude.  

 

A reputação de um Hayes mais esotérico e menos cientista é reforçada em parte pela forma como ele e seus colegas ensinam a ACT nos workshops: eles trabalham com a hard science, mas também pedem aos outros participantes terapeutas, usualmente salas cheias de Ph.Ds, que façam coisas como repetir a palavra leite várias vezes (para mostrar como as palavras se tornam sem sentido – tente isso com “eu estou depressivo”). Ainda que Hayes ensine o mindfulness nos workshops da ACT ao redor do mundo, ele tipifica o “professor no mundo da lua”, de acordo com Barlow, psicólogo que deu aula para Hayes em Brown nos anos '70s. Hayes é famoso em Nevada-Reno por passar pelos alunos sem sequer fazer um aceno de cabeça. Mas isso é pior do que eles pensam. De acordo com a esposa de Hayes Jacqueline Pistorello, em dezembro o casal foi a uma loja comprar presentes de Natal.  Eles se distanciaram para que pudessem comprar os presentes um para o outro, mas em dado momento, Hayes literalmente esbarrou em sua esposa. Ele não a notou, ainda que ela estivesse carregando seu filho recém nascido nos braços. (“Eu chamo isso de seus buracos negros”, diz Pistorello, psicóloga clínica da universidade. Hayes explica timidamente: “Eu estava apenas no meu lugar.”)

 

Pistorello é a terceira esposa de Hayes; seus ataques de pânico começaram logo após a separação de sua primeira esposa em 1977. Hayes cresceu em El Cajon, Califórnia, como o filho mais novo de pais que se amaram mas que de alguma forma tiveram um casamento volátil. Seu pai irlandês- católico foi um vendedor que bebia muito e que foi expulso de um time semi-profissional de beisebol. Hayes conta que seu primeiro ataque de pânico ocorreu “em lugares não tão diferente dos lugares que são muito antigos, no sentido de assistir as coisas destrutivas acontecendo em casa – se escondendo embaixo da cama enquanto o pai arremessava coisas”. O pai de Hayes faleceu nos anos 70’s, sua mãe casou novamente e vive no Arizona. Ruth Sundgren descreve o jovem Hayes como uma criança sensível que sempre dizia coisas como, “Mãe posso lhe trazer o travesseiro?”  



Hayes levou aproximadamente três anos para se dar conta que seu transtorno do pânico piorou quando ele tentava processá-lo cognitivamente. “Infelizmente, as coisas erradas que você precisa fazer para construir [o transtorno do pânico] são lógicas, sensíveis, coisas razoáveis – focar nas situações em que ele pode ocorrer, e tentar controlá-lo. Bem, você precisa também colocar seu dedo na tomada da parede”.



Diferentemente, o cientista em Hayes encontrou uma maneira de montar o “quebra cabeças” com todas as coisas excêntricas dos anos 70’s que ele já havia experimentado, particularmente a meditação oriental. “Algo naquela mistura de pensamento oriental e potencial-humano de movimento fazia sentido para mim,”Diz Hayes. “Isso era estúpido… mas o que eu vi do que eles faziam lá era realmente a possibilidade de perseguir esse lado da aceitação.” Aceitar que o pânico iria acontecer autorizou Hayes a ser capaz de se distanciar do problema. Hayes aprendeu a brincar com seus pensamentos, a levá-los na esportiva: Você se sente com pânico? Ou deprimido? Ou incompetente? Agradeça a sua mente por esse pensamento”, ele gosta de dizer.  



Mas assim como a terapia cognitiva não simplesmente brotou da cabeça de Beck quando ele aprendeu a lidar com a fobia de túnel, a ACT é mais do que o somatório das experiências de Hayes. Na medida em que a condição de ansiedade de Hayes melhorou nos anos 80”s, ele trabalhou com escores de clientes e estudantes em seu laboratório para desenvolver a terapia. O laboratório estudou como os humanos reduzem a amplitude de seus comportamentos baseados em regras que ouvem, mesmo em situações em que essas regras trazem sofrimento. Por exemplo, Hayes conduziu experimentos mostrando que os participantes que poderiam ganhar mais dinheiro por fazerem atividades simples (como mover uma luz por entre um pequeno labirinto) acabavam não ganhando tanto dinheiro porque tentavam seguir algumas regras. Esses estudos levaram a uma abordagem da linguagem chamada de Teoria dos Quadros Relacionais, que sugere que quando nós tentamos resolver problemas verbalmente, nós estamos usando as mesmas habilidades e processos cognitivos que podem nos levar novamente para a esquiva e a dor (“nascer do Sol”, “belo nascer do Sol”... “funeral da mãe”). Levou uma década de pesquisa para que o termo Terapia de Aceitação e Compromisso aparecesse pela primeira vez em um artigo científico, em 1991.  



Hayes é freqüentemente questionado se a aceitação não é apenas um artifício que irá falhar com aqueles com sérias doenças mentais. Ele responde frisando os estudos em que a ACT foi usada com sucesso em psicóticos. Mas uma coisa que me inquieta sobre a ACT é a plasticidade conveniente que permite que ela trate de quase tudo, da esquizofrenia às dores de cabeça. A maioria dos psicólogos constrói gradativamente sua linha de pesquisa a partir de um ou dois transtornos, mas Hayes e seus seguidores parecem oferecer a ACT como um tipo psicológico da pedra de Roseta, a chave para interpretação de todos os eventos interiores. Ao menos, como Barlow, o mentor de Hayes pontuou, a ACT parece faltar com a virtude da parcimônia científica.        



Similarmente, vivendo pelos seus valores soa maravilhoso, mas se nenhum pensamento é bom ou ruim, e nenhuma crença requer modificação, o que acontece quando os valores são imorais? Deverão os pedófilos viver de acordo com os seus desejos? Deverá uma esposa abusada aceitar as investidas de seu marido? Pronto para o debate, Hayes já tem a resposta. “Se vai me dizer, ‘meu valor é educar sexualmente uma criança de 8 anos, ‘ eu não vou fazer terapia sobre esse valor,” ele diz. Mas ainda que Hayes acredite que algumas pessoas tenham realmente valores patológicos, ele afirma que nunca teve esse tipo de paciente, “eu já trabalhei com estupradores e coisa desse tipo, mas na profundidade eu vejo pessoas sendo empurradas por seus impulsos mesmo quando isso vai totalmente contra os seus valores. “A teoria da ACT é aquela em que logo que o pedófilo pára de tentar ignorar ou mudar as suas compulsões, ele pode neutralizar os seus impulsos e se debruçar psicologicamente sobre as coisas que ele realmente pode fazer em sua vida. Assim também para a esposa abusada, diz Hayes “Sai de sua Mente”, “A aceitação do abuso não é o ponto. O que pode ser chamado de aceitação é que você está em sofrimento... e a aceitação do medo que virá quando se tomam os passos necessários para parar com o abuso.” A aceitação, nessa mudança de perspectiva, pode significar uma porção de mudanças.    



Em certa época, nos anos 90’s, nós parecíamos pensar a cura das doenças mentais como uma questão de se manipular algumas químicas no cérebro. Mas depois de décadas de efeitos colaterais e do recente debate sobre se os antidepressivos podem aumentar o risco de suicídio em adolescentes, nós tivemos somente ganhos marginais na saúde mental pública. Um estudo recente publicado na revista Prevention & Treatment achou que aproximadamente 80% das respostas aos seis maiores antidepressivos dos anos 90’s foram duplicadas nos participantes dos grupos controle que tomaram as pílulas de açúcar. Portanto, nós devemos estar prontos para algo diferente.  



Hayes terá que fazer muita pesquisa para mostrar que a ACT, como a terapia cognitiva, não apenas resolve os problemas a curto prazo, mas também previne as recaídas. Hayes e sua equipe acreditam que chegarão lá. Mas mesmo que eles consigam, parece que para a ACT se tornar a terapia mais famosa, ela terá que derrubar o seu fanatismo e as predições grandiosas. (“Nós podemos colocar muçulmanos e judeus juntos em um workshop”, Hayes disse em Washington. “Nossa sobrevivência realmente está em jogo”.) Mesmo assim, Hayes deverá ser louco o bastante para colocar isso tudo junto.

 

 

Veículo: Time Magazine in Partnership with CNN
Seção: U.S
Data: 13/02/2006
País: Estados Unidos
Tradução: Paulo Abreu

*** Nota do tradutor: o jornalista John Cloud está se referindo a terapia comportamental em seus primórdios, na época em que ainda era chamada de Modificação do Comportamento (décadas de 50-70). É consenso entre os pesquisadores da área que muito pouco do vasto referencial experimental e conceitual de B. F. Skinner foi utilizado inicialmente. Esse não é o caso da moderna terapia analítico-comportamental, como ocorre com a ACT e as outras práticas baseadas em evidências agrupadas sob o nome de "terapias da terceira onda" (A Psicoterapia Funcional Analítica, a Ativação Comportamental, a Terapia Comportamental Dialética e a Terapia Integrativa de Casais são alguns exemplos dessas terapias).

 

 

Comentários  

 
+1 #1 EvoluçãoCarlos Almeida 20/12/2010 21:22
Pelo tom da matéria, parece que Steven Hayes está imprimindo uma revolução na psicoterapia científica, não? Parabéns.
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