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Birra infantil virará doença?
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Escrito por Paulo Abreu   
Dom, 01 de Agosto de 2010 13:14

 A matéria que saiu na Folha de São Paulo essa semana (caderno Equilíbrio e Saúde, de 28/07/2010) chama a atenção do público para a prática profissional denominada lá fora de over-diagnosis, que traduzido para o português ficaria como algo do tipo “muito diagnóstico para pouca doença”. Para os profissionais que trabalham diretamente com saúde mental não é nenhuma novidade o crescimento exponencial do número de doenças a cada nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (ou DSM). O manual é tido como referencial máximo pela psiquiatria americana e estará entrando em sua 5° edição. Esperávamos entusiasticamente para o DSM V uma diminuição expressiva no número de subtipos de esquizofrenias e nos deparamos  com  uma nova quimera, chamada de “Distúrbios de birra infantil”.

Classificar a birra infantil como um distúrbio e não como um comportamento que é modelado socialmente tira o problema da esfera psicológica e o aproxima de uma futura medicalização. Bom para os laboratórios e péssimo para os pais. Felizmente muitos colegas psiquiatras estão consternados com essa ideia, como os colegas do Instituto de Psiquiatria do Kings College London. Nas palavras do psiquiatra Til Wykes e seus colegas, "Tecnicamente, com a inclusão de tantos novos distúrbios, todos vamos ter algum”. Complementam os pesquisadores dizendo que "Isso pode levar à percepção de que todos precisamos de remédios para tratar nossas ‘doenças’, e muitas dessas drogas têm efeitos colaterais desagradáveis ou perigosos."  A crítica parte de cientistas respeitados e preocupados com a extensão ética das futuras práticas clínicas respaldadas pelos novos “diagnósticos”.

Aos pais que estão lendo esse blog, existem entendimentos diferentes para o que seja um comportamento de birra (portanto, explicações não ligadas a ideia de doença), sendo ela em geral analisada contextualmente, junto da interaçao da criança com seus cuidadores. Como produto dessa concepção, a psicoterapia analítico-comportamental e a cognitivo-comportamental vem trabalhando há décadas com crianças, seus pais e professores, e até o presente momento nenhuma revista científica respeitável trouxe resultados de pesquisa que atestasse uma indicação conjunta de remédios. Mas claro, muitas vezes o que a ciência publica não é exatamente o que os profissionais alegam seguir em seus consultórios. No Brasil o manual adotado é o Código Internacional de Doenças (ou CID), mas até onde permitem muitas comparações ponto a ponto com o padrão estadunidense, não existem nele diferenças assim tão significativas. Fica a pergunta: O remédio realmente resolverá a birra da criança a longo prazo? Não creio nisso. Agora sabemos pela nossa prática clínica que é muito provável que a criança assim diagnosticada seja logo rotulada socialmente como doente, frágil ou problemática. Somado a isso, ela irá ser considerada como tendo um problema intrínseco a seu organismo, eximindo de responsabilidade justamente o círculo social em que aprendeu o indesejado comportamento.  É esperar para ver o impacto que terá o DSM V na nossa cultura. Será que assistiremos  futuramente na TV a uma Supernanny prescrevendo remédios?  

 

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