| A teoria da doença depressiva ainda em busca de dados |
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| Escrito por Paulo Abreu |
| Sex, 28 de Janeiro de 2011 22:42 |
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Às vezes me sinto repetitivo por citar reportagens sobre saúde mental veiculados pela Folha ou Estadão, mas acredito que tenho feito isso por falta de opção quando o assunto é jornalismo científico brasileiro. Gosto desses jornais, confesso, mas desaprovo a sessão de saúde quando o assunto envolve saúde mental. E não é só com os jornais, mas com a quase a totalidade das revistas populares de psicologia. Em comum, todas hoje falam em cérebro e não mais em comportamentos. Os problemas de comportamento viraram questões do cérebro e/ou de disfunções anátomo-fisiológicas.
Depressão não é mais efeito da perda de algum ente querido, quebra de um amor sólido, dificuldades econômicas intransponíveis, falta de contato social significativo, inabilidade de resolução de conflitos interpessoais, desilusão no ambiente de trabalho, quebra de valores ou ideais pessoais, ou todos esses fatores em conjunto. Isso tudo é muito particular e ocorre dentro das histórias de vida de cada um de nós e em meio a uma cultura com práticas coercitivas muito bem instauradas. Mas agora a depressão virou apenas falta de serotonina na fenda sináptica entre neurônios...
Na biologização do fenômeno, se as pessoas são expostas a todos esses estresses e não desenvolvem o problema, o fazem porque “não trazem o gene da depressão”. Do contrário, se portadoras de tal gene, serão inevitavelmente portadores da depressão.
Não há nada de errado em se estudar os processos neurais e sua genética subjacentes a depressão, e é legítimo fazê-lo, posto que somos uma espécie com uma "bagagem" selecionada evolucionariamente em ambientes semelhantes aos atuais. Mas dai a afirmar que são causas de um doença biológica chamada de depressão, já é um salto interpretativo reducionista muito grande. Doença é uma disfunção no organismo com causa etiológica muito bem definida, identificada por exames clínicos quase que de forma inequívoca. Febre tifóide é uma doença, causada pela bactéria Salmonella typhi; dengue é outra doença, causada pelo arbovírus da família Flaviviridae. Mas qual é a causa comprovada da depressão? Qual é o exame clínico que a detecta?
Vide a matéria da Folha de 28/01/2011, intitulada “Fator genético reduz resistência a estresse e eleva depressão”. O texto, embalado pela constatação de apenas uma revisão de literatura sobre a genética molecular envolvida, versa sobre a descoberta de uma variação mais curta do que o normal no gene 5-HTTLPR em depressivos. Ao final da matéria, concluiu-se que se trata definitivamente de uma doença com fundo biológico, o que pareceu ter saído totalmente do tema sugerido pelo título. Assassinaram todo e qualquer papel do ambiente. Felizmente, nenhum geneticista de respeito desconsideraria o papel do ambiente na expressão fenotípica desse gene. O fenótipo é o produto da expressão dos genes, da influência de fatores ambientais e da possível interação entre os dois.
Nesse tocante, André Brunoni, psiquiatra do Hospital das Clínicas, pareceu ligeiramente mais lúcido, explicando de forma parcimoniosa que o fator genético por si só não implica no aparecimento da depressão. Ele disse ainda que "É necessário haver interação entre a predisposição genética e o ambiente estressante". Contudo, no calor de seu entusiasmo, e paradoxalmente à afirmação, referiu-se a depressão como sendo uma doença.
Infelizmente o tom cientifico dado por André naquele trecho não foi o tom que venderia jornal, pois não abordou diretamente o tema da moda, ou seja, a "genética do destino". O jornalista estava atento a isso. As últimas frases da matéria com as citações dos entusiastas foram dispostas de modo estratégico para dar a conclusão ao texto – depressão é sim doença, reconhecidamente de etiologia genética. O objetivo disso tudo, "sensibilizar as pessoas para a necessidade de tratamento mediante a quebra do estigma social". Mas como pano de fundo, o tratamento, este, não poderia ser diferente, será feito através de remédio antidepressivo. Claro, não seria genuíno conclamar um tratamento farmacológico em se tratando de um problema biológico?
O fato é que em mais de 60 anos de estudos sobre as causas orgânicas da depressão, nada se confirmou até agora. Não é por acaso, estamos falando de problemas de comportamento - comportamento este que, para muito além das suscetibilidades genéticas aos eventos ambientais, é determinado pela relação da pessoa com o ambiente, ao longo de uma história de vida, e dentro de uma determinada cultura (que por sua vez, ocorre em um dado momento histórico).
Muitos profissionais, infelizmente, acabam afirmando mais coisas de que gostariam de acreditar.
Não caberia também perguntar - as perniciosas relações modernas entre os homens não contribuiriam para esse bum do diagnóstico? - ainda que o aumento dos diagnósticos, em si, possa também ser economicamente explicado pelas categorias profissionais envolvidas
Conclusão redefinida. Felizmente, explicações multifatoriais são o que a ciência defende, onde a descoberta do citado gene seria apenas uma das peças do quebra cabeças na causalidade da depressão.
As descobertas da genética do comportamento (e das neurociências) são de fato empolgantes, mas o fato é que o jornalismo científico se beneficiaria em procurar conhecer também os avanços da ciência do comportamento. Esta vem pesquisando justamente os efeitos da relação do homem com o seu ambiente; para o homem que se comporta, e para o ambiente que é por ele modificado.
A Análise do Comportamento (ou ciência do comportamento) explicaria de forma sistemática, por exemplo, o que o termo genérico “estresse” realmente quer dizer em termos de relações comportamentais - seja em animais, ou seja em humanos - como ocorre, em que contextos acontece, que comportamentos estão envolvidos, qual a participação da linguagem na manutenção do problema ou quais são os enfrentamentos que o revertem (ou psicoterapias).
Esse campo de estudos existe no mundo desde a década de 30, com robusta produção científica em periódicos nacionais e internacionais. E como fruto dessas investigações, inúmeros modelos explicativos para os comportamentos ditos depressivos, e a criação de uma psicoterapia que tem sido apontada como uma das mais efetivas, mesmo em casos de depressão de moderada para severa (chamada de Ativação Comportamental).
Tudo isso sem uso de remédios, ou sob a premissa de estar "tratando" uma "doença". Perceba, isso não é uma apologia ao não uso de remédios, necessários em muitos casos, mas um simples esclarecimento de que outro entendimento não-organicista da depressão existe, e que mais importante do que apenas descrever seus conceitos, têm produzido intervenções efetivas.
O foco da intervenção clínica não atrelada a ideia de doença acaba sendo outro, onde no lugar de aliviar quimicamente os sentimentos negativos, o cliente aprende a enfrentar esses mesmos problemas que têm produzido o estado depressivo. Em última instância, aprende a como interagir com o meio de modo a produzir para si melhores benefícios. A aprendizagem de novos comportamentos, enquanto habilidades, valores, superações pessoais ou auto-conhecimento, são os objetivos da psicoterapia pessoal.
Enfim, todos dados oriundos de pesquisas experimentais são igualmente confiáveis, mas acima de tudo, deveriam ser complementares também aos olhos da mídia brasileira. O público ganharia com isso.
Ou a próxima matéria daqui há alguns anos será intitulada "Brasileiro é o povo que mais consome antidepressivos no mundo" ou "Antidepressivo X é o remédio sob prescrição mais vendido em nosso país". Interpretações precipitadas, trazem conseqüências sociais relevantes. Duvida? A polêmica recente envolvendo o ansiolítico Rivotril não me deixa mentir. |











Ninguém se ateve ao fato de que a depressão será a segunda maior causa de incapacidade e perda de qualidade de vida em 2020, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas sob a premissa da doença, torna-se tentador concluir: se aumentará a incidência da depressão no mundo, então estão anunciando com antecedência uma variação biológica na nossa espécie para o gene da depressão? Ressuscitaram Lamark!