| Rivotril: O nosso Admirável Mundo Novo |
|
|
|
| Escrito por Paulo Abreu |
| Qua, 19 de Janeiro de 2011 20:12 |
|
Segundo reportagem da Folha de 17/01/11 a venda do ansiolítico clonazepam disparou nos últimos quatro anos no Brasil, fazendo do remédio o segundo mais comercializado entre as vendas sob prescrição. Vende também mais que Tylenol, para se ter uma ideia. Chamar um psicofármaco da classe dos benzodiazepínicos de “calmante”, remédios com potencial para criar dependência, é no mínimo uma imprudência médica. Os benzodiazepínicos são usados para tratar, dentre alguns transtornos psiquiátricos, o pânico e o bipolar. E como todos os remédios, trazem efeitos colaterais pervasivos, como os movimentos involuntários e as dificuldades de aprendizagem.
Notadamente esse remédio vem sendo prescrito por médicos generalistas, não psiquiatras, que não tiveram treinamento adequado em ciências psiquiátricas ou comportamentais (quando muito tiveram). Caberia ao Conselho Federal de Medicina regulamentar essa festa. Mas a quem serve essa prática, quem a promove? Pode ser que a satanizada indústria farmacêutica possa de fato ter a sua parcela de culpa, mas o fato é que nenhuma força externa tem pressionado um clínico geral, ginecologista ou cardiologista a prescrever um remédio psiquiátrico. Estamos falando sim de comportamentos inconseqüentes de alguns desses profissionais, fruto muitas vezes de certo grau de onipotência. Mas como verdadeiro pano de fundo, é claro, a ideia da higiene dos sentimentos.
Ainda impera o paradigma que vê a ansiedade ou a tristeza como se esses fossem anormais à experiência humana. Os sentimentos ditos “negativos” foram selecionados ao longo de milhares de anos, pois provavelmente tiveram um papel primordial na sobrevivência de nossa espécie. As emoções são o produto de nossas interações com o mundo, com nossa história pessoal. Precisamos aprender a lidar com elas, entendendo que não acontecem no vácuo, e sim em contextos específicos. As emoções sinalizam alguma inabilidade em lidarmos com os problemas correntes, ou mesmo apenas um reflexo de uma fase de transição, como a perda de um ente querido. O enfrentamento de algum desafio também produz dados sentimentos, inevitavelmente. O problema, em última instância, não são os sentimentos, e sim a forma com que nos comportamos em relação a eles.
A ideia da evitação dos sentimentos negativos está impregnada em nossa cultura de tal maneira que muitas pessoas têm também pedido para os médicos prescreverem a dita medicação, não se pode negar. Isso tudo lembra muito a obra Admirável Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley, em que a droga, lá chamada de “soma”, era usada para amortizar as inseguranças dos cidadãos. O problema disso tudo: se suspender a droga, aquela realidade toda aparece. Particularmente, gosto da ideia de viver e aprender com a realidade. |











Comentários
Como pesquisador, sinto-me mais preocupado com o embasamento cientifico de minha prática clínica, tendo por isso procurado essa mesma preocupação em meus pares. Assim ocorre quando preciso encaminhar algum cliente para um médico. Tenho apenas dois psiquiatras de minha inteira confiança em Curitiba.
A ciência não deve ser desvinculada do comportamento do cientista/clínico. Nesse sentido, concordo contigo que, a depender da distância que o profissional guarda com a academia, seria injusto recriminar um bom clínico geral por prescrever o Rivotril. Mas é mais comum encontrar esse conhecimento técnico em psiquiatras, ao menos nos acadêmicos ou egressos dos programas de pós.
Algumas federadas da Associação Brasileira de Psiquiatria já apresentaram propostas para educar as outras especialidades sobre os transtornos mentais, contudo os programas são ainda prototípicos, dado o número de médicos brasileiros que deveriam ser treinados.
Mas tudo isso é muito particular do Paulo, por isso acredite, entendo com profundidade e respeito o seu ponto de vista. Minha pequena “meritocracia” é com a ciência.
Encerrando, para mim, eu buscaria um médico de confiança qualquer se precisasse de um controle químico de meu comportamento. E não estou dispensando.
Do jeito que a coisa vai, se não se cuida a sociedade, vai chegar o dia em que para ter um boteco vai ter que ter autorização do médico. Não estou criticando a medicina como um todo e sim uma parte que nem mesmo os médicos sabem qual o papel, quando não há um remédio para dar.
Leia o que escrevi no Operantelivre.
Paulo, psicoterapia só com psicólogo bom. Remédio só com médico bom.
É isso. Manda lá pro CFM e aproveita mandar para o CFP também.
abraço
Digo isto publicamente a qualquer médico. E acho que 99% vai concordar comigo. Só os 0,1% que se diz e não são médicos vão discordar.
O remédio é dado como um agente para controle químico do comportamento que não é alterado pelos agentes químicos (em geral) e sim pelo ambiente social. E os médicos ( e nisto não diferencio psiquiatria de clínica geral) têm um mesmo modelo de abordagem independentemen te da especialidade. A briga por mercado é entre eles e eu não defendo nenhum dos lados.
Mas qual seria o problema com um "calmante", prescrito por um médico familiar para tratar o “meu estresse do dia-a-dia”? O remédio é barato, com ação rápida, e duração suficiente para me garantir o sono da noite!
Dentro desse contexto, como você Florival, acredito que a responsabilidad e pela solução do problema teria que partir mesmo do Estado, pois a ele cabe legislar sobre isso. Não se pode esperar regulamentação do CFM, já que envolveria problemas políticos internos entre as especialidades, relacionados à reserva de mercado. Fisiologismo interno.
Agora, acho preocupante quando observo profissionais culpando o cidadão ao afirmarem que o problema reside no fato das “pessoas emprestarem as receitas de seus amigos” para poder comprar o remédio. Essa explicação, de longe, não daria conta de explicar o montante aproximado de 2,1 toneladas do remédio vendidas no Brasil em 2010.
Feed RSS para comentários deste texto